Literatura

Resenha: “As Perguntas” – Antônio Xerxenesky

Reprodução: Google
As Perguntas
Autor: Antônio Xerxenesky
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2017
Minha classificação:  (3/5)
* Livro cedido pela editora
Alina é formada em história das religiões e especializada em ocultismo, tendo assim em seu histórico pesquisas que exploram o oculto e religiões misteriosas. Estando na faixa dos 30 anos, ocupa um cargo medíocre e que odeia em uma empresa especializada em edição de vídeos, não seguindo assim a carreira em que tanto se esforçou para se especializar. O seu salário não é promissor e nem satisfatório, mas, é o bastante para pagar a sua parte do aluguel que divide com uma colega de apartamento. Porém, Alina tem algo que a distingue dos demais desde a infância, não sendo exatamente uma característica e/ou experiência muito positiva em sua vida: ela enxerga vultos e sombras.


Mesmo tendo uma vida monótona e sem muitas surpresas, Alina tem dentro de si uma vontade de mudar, de trazer para si oportunidades melhores, porém, a vontade não é o bastante para fazê-la correr atrás de uma nova vida, pelo menos não depois da morte sem sentido de seu irmão, uma perda que a atinge até os dias recentes. Depois que o perdeu, Aline também se perdeu, não sabendo o que fazer ou como seguir com a vida. Os caminhos começam a mudar quando ela tem em suas mãos uma oportunidade de balançar os seus dias e trazer um sentido a mais para a rotina. 


Quando pessoas de classe média são dadas como desaparecidas e após alguns dias são encontradas em estado de insanidade, Alina é contactada pela delegada Carla que, através dos estudos da historiadora, precisa de ajuda para concluir um caso que envolve uma seita denominada Ordem Metafísica Experimental e um símbolo que une nove triângulos de cabeça para baixo. 

Usufruindo de pesquisas e do auxílio do amigo Fábio, Alina se vê na dúvida entre ajudar a delegada ou solucionar o mistério sozinha. Além de enfrentar algo totalmente novo e que está fora de seu alcance, ela também se encontra perdida entre o desconhecido e o medo da presença repentina das sombras, que há tanto haviam parado de pertubá-la e agora voltavam de uma forma ainda mais ameaçadora.


As religiões foram construídas em torno da morte, Alina retomou sua linha de pensamento, elas foram criadas para apreendermos a lidar com isso sem nos desesperarmos (…)



A história tem o período de apenas um dia, sendo assim dividida em duas partes: dia e noite. A primeira parte é narrada em 3º pessoa, mas, na segunda parte temos a imposição da Alina para narrá-la em 1º pessoa. Durante o enredo é perceptível várias referências a cultura pop, principalmente a filmes de terror já que esse é o gênero preferido da nossa personagem principal. Para aqueles que são fã do filme Suspiria, vão encontrar uma boa dosagem de exaltação dessa obra cinematográfica (admito que fiquei muito animada para assisti-lo pela primeira vez).


Não é comum, mesmo nos dias de hoje, encontrarmos uma personagem feminina que tenta enfrentar os seus medos e vai atrás de respostas. Alina me lembrou bastante o Robert Langdon, o personagem famoso de Código da Vinci, escrito por Dan Brown. Ela investiga, procura e cutuca cada canto para encontrar respostas. Por mais que a situação esteja perigosa e trazendo apenas coisas maléficas para si, ela não desiste. Porém, o que me incomodou na personagem foi alguns comentários extremamente machistas, algo que não deveria ser esperado e nem presenciado de qualquer pessoa.


“Por muito tempo eu procurei expressar o efeito da noite em quem eu sou, e por muito tempo procurei em outros lugares, na história, no cinema, na poesia e na música uma explicação, e diversas vezes achei que tinha encontrado algo, mas toda explicação se revelou incompleta ou imprecisa, talvez porque eu estivesse buscando em outro lugar que não dentro de mim, e embora eu seja capaz de articular teorias sobre os motivos que levam filmes de terror – especialmente os sobrenaturais – a se situarem durante a noite, quando o escuro obriga nossa imaginação a preencher lacunas, ou embora possa discorrer sobre a obsessão dos poetas românticos pela lua e pelo silêncio da madrugada, mesmo falando de tudo isso, estaria apenas produzindo palavras, sendo inteligente, porém falsa, artificiosa, e não encontraria solução alguma. É preciso, penso, acabar com toda ilusão de objetividade.”



Minha opinião
Ter recebido esse livro foi uma grande surpresa para mim, ainda mais por ter sido enviado pela própria editora, então, exatamente por causa disso eu estava torcendo bastante para eu gostar da história e da escrita do autor, porém, ao final da leitura fiquei esperando por mais. Outro fator que contribuiu para a minha ansiedade e para ter passado o livro na frente de vários outros foi ser uma literatura nacional contemporânea e do gênero terror. Falou que era terror automaticamente ganhou a minha atenção. E talvez esse tenha sido o meu erro: esperar algo totalmente novo e surpreendente dessa leitura.
Não vou dizer que foi de todo uma leitura ruim, até porque eu gostei da personagem principal e do plot que a trama encaixa na segunda parte, mas, por abordar um tema que eu ainda não havia lido e nem assistido dentro do gênero, acabei por esperar um terror mais pesado e melhor explorado. Essa ideia de sombras e vultos é ótima exatamente pelos caminhos que a história pode seguir e as loucuras que o autor pode encaixar na mente do leitor. Acredito que essa insanidade de personagem para leitor ficou faltando, pois eu não conseguia sentir o medo da Alina. Eu torcia para ela se livrar do que estava acontecendo e até mesmo me senti pressionada pelas decisões dela, porém, o medo não me atingiu e isso seria algo que eu gostaria de ter sentido. Eu gostaria de ter sentido medo pela Alina e pela sua sanidade. Eu gostaria de ter ficado com medo das sombras e de possíveis vultos que às vezes a nossa mente prega na gente, mas, não, o autor perdeu a oportunidade de transformar sombras em algo maligno e assustador e isso foi decepcionante.
A narração também me incomodou um pouco, pois encontrei muito repetição desnecessária e que me fazia bufar de tédio. Por exemplo: sempre que a Alina estava tendo um pensamento dizia “eu pensei”, e esse termo era repetido por várias vezes seguidas em um único parágrafo. Era como se ela estivesse nos forçando a acreditar que aquilo era só um pensamento. Mas, gente, se já falou que está pensando para quê repetir novamente? Eu já entendi, amiga. Você está pensando, que legal, agora para. Isso me irritou profundamente e me fez ter uma certa aversão pela narração, infelizmente.
O final também não me agradou muito. Não irei falar detalhes, pois não quero estragar a experiência e expectativa dos leitores, mas, eu tenho um grande problema com finais que ficam em aberto e com esse não foi diferente. Quando li a última linha da última página pensei que estava faltando folhas na minha edição porque não era possível que tudo iria terminar naquele ato. Ainda não entrou na minha cabeça. Mas, estou superando-o.
Foram poucos pontos que eu não gostei, porém, como a minha expectativa estava alta esses pontos foram mais do que suficientes para influenciarem a minha leitura. O livro não é longo, tem menos de 200 páginas e eu consegui lê-lo em três dias, uma média considerável para o meu ritmo lento de leitura. A escrita do Antônio, por mais que seja repetitiva demais (em questão de termos, nomes e palavras), flui rápido e instiga o leitor. Acredito que o tempo da história, que se passa em um dia, também ajude para a leitura “correr”, pois não há espaço para paradas ou estagnações, flui direto e faz com que você queira saber logo como será o desenrolar dos acontecimentos.
Eu gosto bastante quando um livro traz referência a outras mídias que acompanho, então, achei positivo as citações sobre alguns filmes, me despertou curiosidade para conhecer aqueles que não tive contato. É interessante conhecer um pouco mais da personagem e descobrir como ela ingressou no meio do terror. Eu também fiquei curiosa para conhecer outras obras do autor, inclusive coloquei F na minha lista de próximas leituras, e pretendo estabelecer um contato com as outras histórias.
Para aqueles que gostam de histórias de terror, indico que leiam o livro, mas não esperando algo assustador ou sangrento. Vá com a mente limpa e deixe-se conquistar pela história. Será algo novo e que poderá te surpreender. Para aqueles que não gostam de terror, mas gostam de histórias recheadas de suspense, também indico o livro, pois como falei acima não há cenas assustadoras ou recheadas de medo. Se você é medroso e ficou curioso através da resenha, pode arriscar. Não é uma história que te deixará acordado a noite. Ou pelo menos não foi esse o impacto que causou em mim.

18 thoughts on “Resenha: “As Perguntas” – Antônio Xerxenesky”

  1. Uau, que livro incrível! Ja de começo me apaixonei pela Alina (historiadora de ocultismo? Toca aqui!). Adoro livros sobre espiritos/religião e tb adoro livros policiais e essa mistura parece ser bem legal. Vou adicionar na minha listinha de leitura. Adorei seu post!

    Beijos
    Isa Nonemacher

  2. Eu li esse livro e tive impressões parecidas com as suas. Depois que terminei de ler passei quase um semana refletindo sobre, sem saber se havia gostado ou não. O certo é que o livro não despertou o terror que eu esperava. É um livro que suscita dúvidas. Será que a sombra era coisa da cabeça da personagem? Ou será que é real?
    E o final é totalmente aberto. O que tem muita relação com o título: é um livro que traz perguntas e não respostas.

    Beijos

    1. Oi!
      Pois é, Nilda. O problema para mim também se baseou nessas dúvidas em aberto, pois gosto de tudo explicado e sem brechas para perguntas. Acredito que o autor perdeu uma grande oportunidade de explorar melhor e com mais intensidade o terror da personagem e do leitor, já que as sombras e a escuridão é uma tema tão maravilhoso para se colocar como "vilão". Aquele final me deixa em dúvidas até hoje, também não sei se as sombras eram algo da cabeça dela ou não, mas fiquei com a impressão de que ela se entregou para as sombras naquela última frase, como se ela se entregasse para os seus medos, para a escuridão. Será que essa visão vale? Hahaha.

  3. Olá, tudo bem? Sou indecisa quando se trata de terror, já que amo livros e mangás de terror, porém tenho que admitir que sou bem medrosa. Gostei da forma que você expressou sua opinião e deixou claro os pontos que gostou e não gostou. Sabe, vou parar de criar expectativas com livros depois do Caraval e se um dia for dar uma chance a esse livro vou começar de mente bem limpa e deixar a leitura fluir, obrigada pelo alerta. (rsrs).
    http://www.meioassimetrica.com.br/

    1. Oi, obrigada!
      Eu não li esse Caraval, mas já ouvi pessoas falando os mesmos comentários que os seus, sobre se decepcionar e etc. Espero que dê uma chance para o livro do Antônio, ao menos para conhecer uma obra de terror nacional.

  4. Eu curto referências, mas tem que ser muito bem utilizadas pra história não ficar parecendo um grande pastelão de fan-fics.

    Considerando que o livro é curto, aparentemente fluído, apesar de repetitivo, e principalmente porque fui devidamente avisado na resenha a não esperar por terror, poderia talvez ler e curtir mesmo que um pouco.

    A ideia da história não é nada completamente novo, mas me agradou bastante.

    1. Não custa nada dar uma chance para o livro, ao menos para conhecer mais sobre a escrito do autor e apoiar a literatura nacional. E sobre referências eu concordo com você! Fica interessante quando são bem utilizadas, ao contrário fica a impressão de ser meio amador.

  5. Na verdade, eu acho que temos visto cada vez mais na literatura, personagens femininas fortes e que vão atrás do que quer.
    Não sei quando lerei esse livro, mas me deixou curiosa de certa forma com o mistério envolvido.
    Beijo

  6. Oi Thainá, tudo bem? Que enredo que chama atenção. Senti frio na barriga apenas de começar a ler. Meu gênero favorito é suspense mesmo assim um pouquinho de terror faz com que a leitura ganhe mais ritmo. Geralmente quando leio procuro não criar expectativas justamente por causa disso. Esperamos demais e a leitura acaba não surpreendendo. Prefiro sempre o contrário. Há livros que não damos nada por eles e quanto terminamos se tornam uma das melhores leituras. A ambientação da história, o envolvimento com a polícia para desvendar o caso, me vi assistindo uma série. Ótima dica! Beijos, Érika =^.^=

    1. Acredito que sim, o livro tenha essa impressão cinematográfica por causa dos detalhes e da ambientação. Para aqueles que moram em SP deve ser ainda mais legal uma leitura desse tipo, já que eu não conheço o estado e suas cidades. Se você já sentiu um frio na barriga apenas lendo a resenha, acho que teria uma sensação ainda melhor durante a leitura. Mas como eu disse lá em cima: vá de cabeça limpa e sem esperar por grandes acontecimentos. Apenas sinta-se livre para conhecer uma nova história.

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