Literatura

Resenha: “Resistência – A História Não Contada dos Piratas” – Vários autores

“Somos a Resistência e vamos elevar nossas vozes até os mares inteiros nos ouvirem.”

Um livro sobre piratas e a liberdade de ser você mesmo.

Pouco se ouve falar sobre esses seres do mar, homens e mulheres que vivem à navegar para locais desconhecidos à procura de ouro e objetos de grande valor, atrás da veracidade das lendas, e com gosto por batalhas e sangue derramado. Em Resistência – A História Não Contada dos Piratas não há pudores, censura ou vergonha; há apenas a vontade de ser quem você é e a realização de uma batalha em prol da liberdade para todos.


Ao decorrer de 16 contos, escritos por homens e mulheres, temos contato com a diversidade em seu melhor patamar: há personagens homossexuais, gordos e magros, transsexuais e travestis, negros e deficientes. À partir de narrativas e pontos de vista diferenciados, o leitor encontrará em cada conto uma história única e repleta de apoio aos que precisam, de apoio à você. São palavras que, mesmo retratando décadas atrás e marinheiros sanguinários, acolhem e abraçam, fazendo com que você não se sinta mais sozinho.


Piratas são sinônimo de resistência; resistência ao preconceito, à desvalorização do “diferente do padrão” e ao julgamento que lhe impõe à prova a sua capacidade. Piratas são lutadores, guerreiros, salvadores. Buscam a liberdade para si e, ao mesmo tempo, para os outros. Piratas são resistência, e é nosso dever – ao lado deles – resistir.

Os meus três contos preferidos:

Só Uma Mulher, da autora Aline C. Moreira: Anne, por ser mulher, é subestimada e subjugada por um Capitão que não acredita em suas atitudes, mas que logo é surpreendido por sua força e crueldade. O que eu mais gostei nesse conto foi o teor de vingança e a reviravolta da personagem. Assim como o Capitão, eu também imaginei que Anne fosse uma mulher fraca e até mesmo burra, mas, assim como ele, através do desfecho eu pude provar do meu próprio veneno.


Koi, do autor Felipe Noites: Kim Koi deseja ser uma pirata, mas seu pai, o Rei dos piratas, repugna tal pensamento. Quando a tripulação – e a família – é atacada por uma ningyo o destino dos Koi muda para sempre. Kim é obrigada a travar uma batalha consigo mesma e a passar pelo processo de auto aceitação, assim se libertando das próprias amarras e se permitindo ser ela mesma. O final da história traz uma linda mensagem de aceitação e, ainda, nos apresenta um personagem trans.


Rainhas do Mar, da autora Hingrid Batista: Ao não ser aceita em outras tripulações por conta da sua vontade em vestir roupas femininas – mesmo sendo um homem -, Roxe inicia a sua própria, as Rainhas do Mar, um grupo formado apenas por homens com o mesmo costume e desejo da Capitã, assim formando uma nova família entre elas. Por mais que o desfecho desse conto tenha me deixado em choque, foi um choque que eu mereci e apreciei. Ter contato com esses personagens, tão incomuns para mim, mas também comuns para outras pessoas, foi uma experiência gratificante e inspiradora. Me senti parte das Rainhas do Mar e me orgulhei de suas buscas, sem nunca terem a vergonha de serem elas mesmas.

“Não somos cães, não somos inferiores, não somos a ralé. Somos os deuses que mudarão este mundo.”

Sendo uma pirata pela primeira vez dentro da Literatura.

Mesmo eu gostando da temática marítima e de piratas – e tendo o Assassin’s Creed Black Flag como o preferido da franquia -, nunca tinha lido nada que envolvesse essa abordagem. Fiquei ainda mais surpresa quando vi que a Cervus iria mesclar esse tema com histórias sobre resistência e diversidade, dois assuntos que nunca vi juntos. E, claro, isso se transformou em uma leitura informativa e importantíssima, mostrando que fantasia e conscientização andam juntos.


Como a maioria das antologias, houveram contos que gostei mais do que outros e escritas que me deixaram com uma sensação maior de imersão. Porém, isso em nada afeta ou tira a preciosidade de todas as histórias, que são um conjunto surpreendente de empatia e liberdade. Sendo assim uma ótima oportunidade para conhecer novos autores (e acompanhá-los em trabalhos futuros) e uma facilidade maior de encontrar um personagem que lhe represente, que faça ocorrer a identificação, seja isso por conta do gênero ou pela situação proposta à ele.


Eu, por exemplo, me senti representada por cada Capitã pirata que protagonizava uma história; me vi em cada mulher, ali, lutando pela sua liberdade de expressão e de ser quem é; me aproximei de cada personagem que se mostrou, provou, libertou. Tive incríveis conexões com todas elas e pude me perceber refletida em suas ações, seus pensamentos. Não tenho palavras para dizer o quanto essa sensação é maravilhosa.


Por conta disso os pequenos detalhes que me incomodaram, como algumas escritas e certos momentos de algumas histórias, não afetaram a minha experiência de leitura. Eu não deixei que afetassem, e isso contribuiu para uma experiência positiva. Independente se uma determinada história ou personagem não lhe agrade, isso não importará, já que ainda haverá dezenas de contos para se apreciar, e essa é a beleza de uma antologia, não?


Entretanto é importante alertar que há histórias que contém cenas de sexo e linguagem imprópria, então, caso você se incomode com isso talvez esse livro não seja o mais recomendado para você no momento. Ao contrário, para os que não veem problema, Resistência é uma leitura que deve ser apreciada e espalhada. Uma leitura importante e necessária para nossos tão preciosos gritos de liberdade em uma época tão desconfortável para se viver em nosso país.
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