Literatura

Resenha: “O corpo escravizado e o corpo negro” – Toni Morrison

Ao ler o posfácio que há em Se a rua Beale falasse e descobrir o quanto James Baldwin e Toni Morrison eram amigos, percebi que precisava ler algo da autora urgentemente. O nome dela não me era estranho, o que me fez instantaneamente procurá-la entre meus arquivos no Kindle e encontrar o e-book de O corpo escravizado e o corpo negro, que havia adquirido gratuitamente pela Companhia das Letras.

Toni Morrison tem uma força grandiosa e suas palavras me tocaram profundamente, assim como aconteceu com as de James Baldwin. Ambos os textos que estão nesse e-book são ótimos para se compreender a visão da pessoa negra e absorver tudo que esse conhecimento tem para nos somar. São textos que serão ótimos em uma leitura, mas que se tornarão ainda mais excelentes em releituras futuras.

E aqui vale lembrar que: há alguns meses a Companhia das Letras disponibilizou de graça esses dois textos através do site da Amazon. Pesquisando agora, eu percebi que os textos, assim de forma independente e separada, não estão mais disponíveis, mas apenas o livro completo de ensaios, A fonte da autoestima. Por isso no link de compra estará o livro completo, e não apenas os textos que li. Mesmo assim, através da resenha você já terá um gostinho do que irá encontrar.

Leia também: Se a rua Beale falasse, de James Baldwin

Título: O corpo escravizado e o corpo negro
Racismo e fascismo
Autora: Toni Morrison
Quantidade de páginas: 25
Editora Companhia das Letras
Gênero:
 Não-Ficção / Filosofia
Ano: 2020
Skoob: Clique Aqui
Compre: Amazon
Minha classificação: ★★★★★ (5/5)

Pequenos textos, grandes conhecimentos

Entre os anos de 1995 e 2000, a autora Toni Morrison escreveu dois textos sublimes e didáticos explorando temas de suma importância e conhecimento. Com uma escrita direta, crua e simples, a autora traz consigo textos carregados de reflexões e aprendizados, sendo uma ótima forma de começarmos a entendermos melhor as bases do racismo e do fascismo e as linhas tênues, mas distintas, entre escravidão e racismo.

Em Racismo e Fascismo, texto que introduz a obra digital, somos levados à reflexão de como tais pensamentos, ideologias e preconceitos são introduzidos em uma sociedade, à princípio de forma lenta e imperceptível, mas depois tornando-se movimentos supremos de ódio e violência. Assim, Toni Morrison cita 10 passos utilizados para se inserir o racismo e o fascismo na sociedade e no governo, passos que chocam, mas que, ao mesmo tempo, são totalmente críveis e reais.

Já o segundo texto, O corpo escravizado e o corpo negro, aborda a distinção entre a escravidão e o racismo e em como ambos, ao menos no início, não estavam interligados; a autora disserta sobre como escravidão e racismo não podem ser considerados a mesma coisa, colocando um contraponto entre o corpo escravizado e o corpo negro.

Toni Morrison ainda revela o porquê de achar tão necessário e importante que ainda falemos sobre a escravidão. Diferente das guerras e de suas vítimas, as pessoas escravizadas não tem estátuas ou memoriais para si; não há um local para ser visitado, contemplado ou relembrado. Portanto faz-se trabalho da própria Literatura não deixar que esse acontecimento morra em nossas lembranças.


“E aqui se insinua outro poder desse projeto: o de nos tornar ciosos das formas adaptáveis, persistentes e escorregadias do racismo moderno, no qual o corpo escravizado é reconstruído, tornando a encarnar no corpo negro, valendo-se de uma forma bem americana de limpeza étnica pela qual um número monstruosamente grande de homens negros e mulheres negras é cuidadosamente encarcerado, tornando-se mais uma vez mão de obra gratuita — cercado, mais uma vez, em nome do lucro.”

Impactante, necessário e cuidadoso

Nunca tinha lido nada da Toni Morrison, mas arrisquei nesse curto e-book que contém dois textos importantíssimos da autora. E, acho, não poderia ter começado por nada melhor.

Ela tem uma forma crua, sincera e direta de falar de assuntos importantes, e aqui ela faz isso de modo educativo, reflexivo e que nos traz muita aprendizagem. Ela debate a diferença do corpo escravizado e do corpo negro, fala sobre como ainda é importante e necessário que esse tema seja abordado em obras de ficção e também diz como o racismo e o fascismo podem ser criado através de um passo a passo.

Esses textos só me fizeram querer ler mais e mais textos da autora, sejam ficcionais ou não, pois suas palavras têm poder, ensinamento e força. Algo tão pequeno, mas que significa tanto. Espero que todas as pessoas tenham a oportunidade de conhecer a fundo esses textos e as palavras da autora, pois ela precisa ser ouvida, agora mais do que nunca.


“Quando todos os nossos medos tiverem sido transformados em episódios de uma série de TV, nossa criatividade censurada, nossas ideias adaptadas às pesquisas de mercado, nossos direitos vendidos, nossa inteligência reduzida a slogans, nossa força paralisada, nossa privacidade leiloada; quando tudo na vida se reduzir a encenação, entretenimento e comércio, nós nos veremos vivendo não em uma nação, mas num consórcio de indústrias, completamente ininteligíveis para nós mesmos, exceto por aquilo que vemos em espelho e de maneira confusa.”


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