Literatura

Resenha: “Se a rua Beale falasse” – James Baldwin

James Baldwin estava entre alguns autores que eu tinha muita vontade de conhecer, e isso já faz um bom tempo. Assistindo a um vídeo no Youtube onde o autor foi citado, lembrei novamente o porquê de eu tê-lo colocado na minha lista de leituras e acabei decidindo não enrolar mais. Então, peguei Se a rua Beale falasse e finalmente o li.

Eu não lembrava na sinopse e por isso fui de cabeça limpa, pronta para ser impressionada e chocada, se fosse preciso. Nisso, James Baldwin conseguiu me conquistar com a sua escrita crua, mas engraçada em certos momentos; me fez refletir e pensar nesses personagens mesmo após o final do livro. E o final do livro, meus amigos, me deixou com um grande gosto de quero mais.

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Título: Se a rua Beale falasse
Autor: James Baldwin
Quantidade de páginas: 224
Editora Companhia das Letras
Gênero:
 Ficção
Ano: 2019
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Minha classificação: ★★★★ (4/5)

A realidade e a injustiça do jovem negro

Fonny é um jovem negro que foi preso injustamente por um crime que não cometeu. Acusado de estupro, ele vive longos meses dentro da prisão à espera de sua salvação e de sua liberdade. Todos os dias Fonny recebe a visita de sua noiva Tish, uma moça negra que está grávida do amado e que não poupa esforços para tirá-lo o quanto antes daquele lugar horroroso.

Enquanto o tempo passa e a barriga de Tish cresce, através de lembranças o leitor é apresentado a vida do casal antes da prisão; como eles se conheceram, como o amor surgiu e o que ambos desejavam para o futuro. Contrapondo a essas memórias felizes, há a situação atual de Tish, de sua família – que demonstra apoio ao casal constantemente – e da família de Fonny, a qual estabelece uma relação complicada com o rapaz.

Escrito e publicado pela primeira vez em 1974, Se a rua Beale falasse é uma história de ficção que não deixou de ser atual ou crível, demonstrando como o racismo, o sexismo e o machismo perdura através do tempo. A narração em 1° pessoa, encarregada por Tish, fala diretamente conosco, nos colocando na pele da protagonista e nos colocando também para pensar nos dilemas vividos pelo jovem casal.

Desse modo, o livro aborda temas que aprofundam as lacunas do racismo, como, por exemplo, as diferenças no tratamento entre pessoas negras de pele clara e de pele escura, o embranquecimento de uma mulher porto-riquenha e o encarceramento injustiçado da pessoa negra. Ao lado dessas discussões, também há a forma que o autor trata a masculinidade, mostrando como o homem encarrega-se em ser o protetor na relação (o que gera uma situação abusiva em certos momentos) e como a masculinidade é afetada pela prisão, sendo assim causado resultados mentais irreparáveis, principalmente na questão do estupro.


“A mesma paixão que salvou o Fonny fez com que ele se encrencasse e fosse para a cadeia. Porque, veja bem, ele havia descoberto seu centro, seu próprio centro, dentro dele: e isso era visível. Ele não era o preto de ninguém. E isso é um crime na porra deste país livre.”

Reprodução: Biblioteca Pessoal

Uma obra representativa e importantíssima em qualquer linha do tempo

Esse foi o meu primeiro contato com uma obra do James Baldwin, e posso dizer que iniciei da forma certa. Eu gostei bastante da escrita do autor e de como ele desenvolveu a história que mesmo tendo sido escrita em 1974 continua sendo, tão tristemente, atual.

Aqui foram explorados temas como o encarceramento do homem negro inocente, a corrupção e racismo do policial branco, as nuances de diferença que há entre negros mais claros e mais escuros, a misoginia, o presídio, o ato de embranquecer. Temas fortes, necessários e que causam incômodo. Me senti durante toda a leitura incomodada com a situação da protagonista e de seu noivo; senti a injustiça, o ódio e a força de vontade pela liberdade. Senti tudo. Sabendo que não é o meu local de fala e que nunca passei por nenhuma das situações explícitas, além de sentir, eu também aprendi.

Alguns detalhes sobre prostituição e a forma com que as mulheres são tratadas me incomodaram bastante e, provavelmente, por isso não foi uma obra favoritada e sem defeitos (ao meu ver). Ao final há um posfácio de Márcio Macedo que é muito esclarecedor e enriquecedor, agregando ainda mais com a obra, e nesse momento da leitura eu entendi o que o autor quis mostrar com as partes que focalizavam na prostituição feminina e no abuso sofrido pelas mulheres, mas, mesmo assim, isso não tirou o incômodo que tive com tais cenas.

Foi uma leitura que me agregou conhecimento, experiência e reflexões, e que precisa ser lida por muita gente. Fiquei com uma imensa vontade de ler as demais obras do autor e por isso já tratei de adquiri-las em versão digital, a que estou mais ansiosa para ler é O Quarto de Giovanni, outra obra bastante aclamada e elogiada. De qualquer forma, é um livro que recomendo demais.


“Nem o amor nem o terror deixam a gente cega: só a indiferença faz isso.”


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2 thoughts on “Resenha: “Se a rua Beale falasse” – James Baldwin”

  1. Assim como você eu tenho muito vontade de ler o autor, mas ainda não consegui pegar ele fetivamente pra ler, mas gostei demais da sua resenha e me tocou demais.
    Eu gosto de ler essas obras mais densas as vezes, é importante que eu, como pessoa branca, reflita sobre isso e sobre como isso impacta a minha vida e das pessoas ao meu redor e o que eu posso fazer pra tentar mudar isso.
    Adorei seu post e já vou deixar esse livro de próximo, com toda certeza.

  2. Oi, tudo bem?
    Eu já tinha ouvido falar sobre esse livro por causa do filme, mas não sabia muito sobre ele. Fiquei bastante curiosa por saber os temas que são abordados, que são fortes mas muito necessários. Acredito que seja uma leitura bem tensa, mas que também permite muitas reflexões. Adorei a resenha e fiquei com muita vontade de conhecer esse livro.
    Beijos!

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