Literatura

Resenha: “Dom Casmurro” – Machado de Assis

Se você não conhece o plot principal da história, a intriga que Bentinho planta entre os leitores, essa resenha terá spoilers para você. Leia por sua conta e risco.


Muitos leitores têm medo de arriscar-se na Literatura Brasileira, principalmente quando os autores são renomados, taxados com a palavrinha “clássico”, e colocados em um pedestal pelos professores da língua portuguesa e amantes de literatura. Admito que eu era um desses leitores. Sentia medo de tentar ler uma obra-prima e não conseguir extrair o significado que a obra trás para o nosso país e para a literatura no geral. Sentia medo de não conseguir entender as palavras utilizadas por esses autores, principalmente aqueles de séculos passados que tinham uma escrita totalmente diferente das atuais. Sentia medo em ler e não ser agradada pela história, achá-la chata ou até mesmo insuportável. 


Eu sentia todos esses medos que um leitor sente ao ser obrigado a ler um livro clássico quando está no Ensino Médio e quando, às vezes, nem gosta do ato da leitura. Eu sentia, até o momento que coloquei a minha cara ao sol e me libertei. Me arrisquei nos escritos da Clarice Lispector e, para o meu próprio espanto, adorei. Li José de Alencar e me fascinei. Cheguei ao momento que precisei entrar na cabeça de Machado de Assis e desvendar esse autor que tanto falam sobre. Decidi que era a hora de ter a minha própria opinião sobre a Capitu e saber se ela traiu ou não o tal do Bentinho. E, novamente, para o meu espanto Machado me conquistou, e Capitu ainda mais.

“Capitu, apesar daqueles olhos que o diabo lhe deu… Você já reparou nos olhos dela? São assim de cigana oblíqua e dissimulada.”



O nosso narrador, Dom Casmurro, apelidado dessa maneira por ser conhecido por dormir no trem ao ouvir histórias de desconhecidos e por viver sozinho, irá nos apresentar a sua própria história de quando era mais novo, englobando assuntos como o seu primeiro amor, a ida ao seminário para se formar Padre e o momento em que “achou” que estava sendo traído pela mulher amada. Encontramos nesse personagem um narrador engraçado, irônico e que sabe utilizar de belas palavras para expressar os sentimentos, mostrando uma postura oposta à sua de quando era mais novo e chamado por todos pelo apelido de Bentinho.

Mesmo antes de nascer, Bentinho estava destinado a duas coisas: ser padre e amar Capitu. Sua mãe, Dona Glória, prometeu a Deus que se conseguisse ter um filho ele seria mandado para o seminário e aprenderia a vocação de padre. Porém, algo que ela não imaginava era que o menino iria se apaixonar logo cedo e faria uma promessa para a amada sobre se casarem no futuro.


Mas o assunto que mais intriga nessa obra não é saber se Bentinho vai ou não para o seminário e muito menos entender como surgiu o amor entre ele e Capitu. O assunto principal que rodeia essa história e que está sempre presente nas rodas de bate-papo é descobrir se Capitu traiu ou não o marido. Ao decorrer da história acompanhamos a batalha de Bentinho para se casar com Capitu e não seguir a carreira dentro da igreja; acompanhamos também o florescer desse romance e os resultados destrutivos que o ciúmes possessivo dele trouxe para o seu casamento.


A famosa escrita Machadiana tem os seus obstáculos pelo caminho. Recheada de ironia, crítica política e pontos humorísticos, a escrita do autor poderá aparentar à primeira vista ser rebuscada e difícil de entender, porém esse medo logo vai embora quando o leitor avança para a segunda página. Há o uso de palavras desconhecidas para a nossa época, mas, o contexto faz com que o sentido da frase seja entendido perfeitamente, sem perder detalhes importantes da trama. Admito que imaginei ser bem mais difícil do que realmente foi.


Outro ponto que é de suma importância para debate é a personagem Capitu, que merece um post totalmente dedicado a ela. Nunca imaginei que o autor daria vida a uma mulher tão forte, independente e que sabe o valor que tem. Capitu não é apenas o interesse amoroso de Bentinho e nem fica designada ao papel de par romântico, ela tem brilho próprio e consegue conquistar o público através de suas atitudes e falas. É perceptível logo no início a maturidade que essa mulher carrega em seus ombros desde pequena e o pensamento libertador e concreto que tem sobre a sua vida. Uma mulher a frente da opinião generalizada de sua época e que quebra os padrões impostos pela sociedade daquele século

“Estávamos ali com o céu em nós. As mãos, unindo os nervos, faziam das duas criaturas uma só, mas uma só criatura seráfica.”



Na minha visão: Capitu traiu ou não?
É incrível a capacidade que o Machado de Assis tem para surpreender o leitor. Quando você imagina que já sabe tudo sobre a história e que suas teorias estão corretas, sempre há uma informação a mais que lhe empurra ao chão e destrói todos os seus pensamentos antes concretos. E também é incrível a capacidade que esse autor teve em ultrapassar os séculos e continuar indagando gerações, trazendo cada vez mais debates e conversas direcionadas a sua obra.


Dom Casmurro é engraçado e me conquistou durante a sua narração. Por mais que eu não gostasse dele mais novo, como Bentinho, criei uma relação afetiva com o personagem e me coloquei em sua pele nos momentos de dificuldade. Porém não fui convencida de que Capitu o traiu, e agora vem o meu porque. Bentinho é um homem extremamente possessivo, e isso fica claro em várias passagens do texto, pois o próprio afirma essa característica. Ele, muitas vezes, é inseguro em relação a Capitu, tem medo de perdê-la para outro homem e por causa do ciumes já chegou a cogitar em nunca mais falar com a mulher, uma atitude extremamente estúpida e com um o motivo ainda mais banal. 


Eu não consegui acreditar que Ezequiel, filho do casal, era fruto de uma traição, mesmo o narrador estando convicto de que a criança era a cópia do seu amigo traidor. Isso também se deve por causa de outro personagem, o agregado José Dias, que aos meus olhos era extremamente fofoqueiro, mas que não disse nada a respeito dessa semelhança, algo que eu esperava vir da boca dele a qualquer momento. Ou seja, apenas o Bentinho enxergava essa semelhança entre o filho e o melhor amigo, o que para mim era resultado de um ciumes possessivo e uma desconfiança cega. Então, para mim, Capitu não o traiu.

Agora falando de uma forma geral, o autor me conquistou e me deixou com vontade de ler as demais obras, se possível até todas. Eu adoro conhecer novas obras nacionais e explorar os clássicos do nosso país, sempre dando uma chance para os autores de renome e para os que estão começando no meio literário. Conhecer a escrita desse, que é tão falado e admirado, trouxe uma experiência literária nunca antes sentida. O modo como ele descreve a política da época através de metáforas, como coloca a devoção da igreja e o romance entre duas crianças é uma mesclado de acontecimentos excepcionais que se conectam em tudo. E são esses pontos que fazem o leitor entender o motivo dessa obra ser tão aclamada e ter o reconhecimento que tem, não importando quantas décadas passem.


Eu me sinto tão apaixonada pela forma que o autor conta a sua história, tão empolgada com a sua escrita e suas indagações durante a narrativa, que mal consigo me conter ao falar desse livro (talvez isso seja perceptível pelo tamanho dessa resenha), e mesmo assim fico com a impressão de que não disse nem a metade do que deveria e pretendia, do que imaginei passar para vocês. Mas, no fundo, espero que tenha despertado uma curiosidade pela obra e pelos personagens, e que procurem mais sobre essa história.


Acredito que a obra seja indicada para qualquer idade, inclusive para adolescentes, mas que a leitura não deva ser um ato de obrigação por parte de professores. Cada um deve ter o seu momento e ler a obra quando achar que está pronto para tal, mas, que não percam a oportunidade de uma dia lê-la, pois vale muito a pena e trará uma visão de literatura diferente para a sua mente, uma literatura revolucionária que você, provavelmente, procurará nas próximas leituras.


Para mim que sou estudante de Letras e apaixonada por literatura já estava mais do que na hora de arriscar e entrar de cabeça nesse livro. Não me arrependo de ter esperado 22 anos para isso, pois acredito que li no momento exato e que me senti preparada (e até confiante). O momento acabou sendo tão certo que resultou em uma leitura rápida, empolgante e satisfatória, e que servirá como referência pelo resto da minha vida.


Por causa disso (e por inúmeros outros motivos que me controlei em não falar, mas, que ficaria intensamente feliz em discutir com vocês nos comentários ou em qualquer rede social, basta me mandarem uma mensagem), na minha visão, a leitura de Dom Casmurro se faz essencial para os amantes desse universo magnífico de histórias. Não importa quanto tempo você levará para começar a leitura ou quanto tempo demorará para finalizá-la, o que importa mesmo é dar uma chance para a escrita do Machado e se deixar ser influenciada pelo clima da história, sempre prestando atenção aos detalhes contados pelo narrador.


Um livro que não deve apenas ser lido, mas apreciado e sentido. Deixe o Machado entrar em sua mente e plantar a dúvida que rodeia a literatura desde séculos passados. Deixe também o preconceito de lado e embarque nessa aventura repleta de intrigas, diálogos elaborados e dúvidas. Apaixone-se pelos olhos de cigana oblíqua e dissimulada de Capitu. Eu me apaixonei.

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2 thoughts on “Resenha: “Dom Casmurro” – Machado de Assis”

  1. Jornal Informal

    Vou lhe falar, eu li Machado de Assis (não só Capitu, mas várias obras do mesmo) e simplesmente amo suas obras. Ele é maravilhoso e sua escrita é excepcional. Agora uma dica que dou, de verdade, é que assisti a mini-série Capitu, são apenas cinco capítulos e ficaram maravilhosos. A fotografia, imagem, encenação você verá que a personagem (interpretada pela atriz destinada a ser Capitu) cria vida e trás um toque artístico maravilhoso. Aconselho mesmo!

    1. Eu estou querendo ler mais obras do autor, acredito que a próxima será "Memórias póstumas de Brás Cubas". Acho que conheço a série, mas nunca assisti. Vou procurar agora mesmo os episódios! Obrigada pela dica. ♥

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