Literatura

Resenha: “Desconstruindo Una” – Una

Título: Desconstruindo Una
Autora: Una
Quantidade de páginas:
 208
Editora Nemo
Gênero:
 Não-Ficção / Graphic Novel / Biografia
Ano: 2016
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Minha classificação: ★★★★★ (5/5)

A desvalorização da vida e corpo femininos

Chega a ser difícil fazer uma resenha coesa sobre essa graphic novel tão intensa. Não digo isso por ser confusa ou de difícil compreensão. Na verdade, longe disso, pois a arte lúdica e as informações simples, mas precisas, tornam a leitura, em certo aspecto, fácil. Eu digo que é difícil falar sobre essa história porque o assunto toca, fere e sangra, principalmente quando lido por mulheres.

Eu digo isso porque sou muito sensível a histórias que abordam as vidas de quaisquer mulheres, independente se o tema principal for os traumas ou abusos ou a solidão. Tudo que leio absorvo para mim; me sinto a própria personagem e tomo suas dores como se fossem minhas. E por isso essas leituras nunca são fáceis. Muito menos dissertar sobre elas depois.

Desconstruindo Una foi uma dessas leituras pesadas, mas enriquecedoras. Mesmo sendo uma HQ e tendo um traço lindo – e com certa leveza – em sua arte, a história de Una não é bonita e muito menos feliz. Durante a década de 70 ela sofreu abusos e insultos que nenhuma mulher deve presenciar nunca. Tentou lutar contra os outros, e até contra si, mas a culpa e a falta de entendimento da realidade não a deixavam concluir nenhum ato.

Reprodução: Biblioteca Pessoal

A violência de gênero e descaso com o feminino

Através de muitos gráficos, pesquisas e informações, Una nos mostra como a violência de gênero cresce cada vez mais e como a mulher é colocada como vítima e vilã ao mesmo tempo. É ressaltado, e é importante que isso seja feito, a maneira como alguns, e nisso se encaixam os policiais que desacreditam as vítimas, valorizam mais a vida de algumas mulheres do que de outras. Como colocar à frente a vida de alguém e simplesmente ignorar que outra pessoa também está precisando de ajuda? Como não ter justiça para ambos os lados? Para todas as mulheres?

Com muitas artes recheadas de significado e textos expressivos, é exposto o pesadelo gerado da experiência de Una com uma sociedade tóxica, machista e acusadora. Em como um ato, tão normal quando feito por garotos, trouxe para si consequências e julgamentos inexplicáveis, causando assim traumas irreparáveis, os quais acarretaram em confianças indesejadas e um abuso sofrido quando ainda era nova. O simples fato de não ser ouvida ou acreditada fez com que Una sofresse e revivesse traumas por um longo período de sua vida. ㅤ

Junto com a sua história também é nos apresentado um serial killer, o “Estripador de Yorkshire”, e a incompetência da polícia e o seu desdém para com as vítimas. Ainda abordando também em como certas pessoas, os famosos cidadãos de bem e até mesmo a própria mídia, endeusavam o assassino e esqueciam das vítimas, colocando-o assim como o centro de tudo. ㅤ

Machismo, feminicídio e descrença são os principais temas abordados nessa história de não-ficção recheada de informações sobre a violência de gênero. Mais uma história que nos mostra de forma crua a desvalorização da vida e corpo femininos e a importância da sororidade e apoio mútuo entre as mulheres.

“Então me tornei uma testemunha não confiável e uma vítima perfeita.”

Por e para todas as Una do mundo.

Engraçado que escolhi essa leitura de forma despretensiosa e esperando algo mais leve, agradável de ser lido (no sentido de peso), mas logo no início senti um baque intenso, um aperto, uma explosão no peito. Não acreditei que iria ler seguidamente mais uma história que tratava de uma vida sofrida, cheia de traumas e que, com toda a certeza, iria me deixar muito mal com esse contato. Mas é claro que em nenhum momento me arrependi da escolha.

É interessante notar – e pontuar – que mesmo que esses traumas e abusos sejam abordados como foco central da história, a proposta da autora Una consegue ir muito além disso, trazendo tantas informações sobre feminicídio e violência de gênero que fiquei surpresa com tamanha profundidade, cuidado e estudo.

Ao mesclar os momentos da sua infância e adolescência com o caso do Estripador de Yorkshire, a autora traz uma narrativa pesada, informativa e devastadora, tratando até mesmo da educação e sexualidade diferenciadas para garotas e garotos, o que sabemos que, mesmo sendo um absurdo, ainda acontece com bastante frequência em famílias mais tradicionais. Tudo isso resultou em uma versão minha impactada e quebrada, me sentindo mal em várias situações da narração e me colocando na pele de todas as vítimas, tanto as expostas no livro como também aquelas que continuam sendo julgadas e mortas ao redor do mundo apenas por serem mulheres.

Por conta dos desenhos fofos pode parecer até que é uma leitura rápida, mas não se engane. O processo de leitura pode ser mais lento do que o habitual, principalmente pela quantidade de informação em cada página, mas isso em nada afetará a sua experiência, pois tenho certeza que, assim como aconteceu comigo, essa história irá mexer internamente e intensamente com você. Uma leitura de suma importância nesse momento de violência suprema em que vivemos; uma leitura para conscientizar e chocar, mas, principalmente, para expor o desdém e a maldade de certos homens perante nós mulheres.

Reprodução: Biblioteca Pessoal

TW: se você é sensível a temas como abuso sexual, bullying e violência contra a mulher essa leitura não é recomendada. Lembre-se que a sua saúde mental sempre vem em primeiro lugar.

Outro aviso: eu o li através do plano da Amazon Prime, o Prime Reading, onde há um catálogo de livros para “pegarmos” emprestados. Você pode experimentar o serviço com 30 dias gratuitos fazendo a sua conta nesse link, tendo acesso não somente a livros, mas também a séries, filmes e músicas. Lembre-se que ao utilizar o nosso link da Amazon você nos ajuda a continuar mantendo o blog ativo e com postagens semanais.


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2 thoughts on “Resenha: “Desconstruindo Una” – Una”

  1. Oi Thainá,
    Eu acho de extrema importância e valor toda e qualquer obra que trate sobre esse tema, e apenas imagino o quão difícil possa ser fazer a leitura se pondo no lugar da personagem. Vivemos numa sociedade um pouco melhor, as mulheres já alcançaram vários direitos, mas, ainda não acredito que seja o bastante. A sociedade ainda é muito machista, o que mais me tocou em sua resenha foi a fala em que a sociedade faz da vitima a vilã, eu sinto uma repulsa enorme das pessoas que culpabilizam as vitimas, principalmente quando elas são mulheres. Eu tenho Amazon Prime vou ver se leio essa Graphic Novel quando concertar meu tablet ou comprar um leitor para mim!!

    Beijos.

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