Literatura

Resenha: “A Vida Invisível de Eurídice Gusmão” – Martha Batalha

Ler A Vida Invisível de Eurídice Gusmão não foi fácil. Antes de começa-lo eu não sabia o que esperar, pois nem da sinopse eu me lembrava. A única lembrança que tinha sobre o livro é que foi indicação de um autora nacional que admiro muito, que me fez automaticamente colocá-lo na lista de desejados.

Assim que o título apareceu no catálogo da Net Galley não pensei duas vezes; o solicitei e comecei a lê-lo logo quando me mandaram. Mas, como disse acima, não foi uma leitura fácil. Foi dolorido, tocante e intenso. Foi uma das melhores leituras do ano.

Título: A Vida Invisível de Eurídice Gusmão
Autora: Martha Batalha
Quantidade de páginas:
 192
Editora Companhia das Letras
Gênero:
 Ficção / Drama
Ano: 2016
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Minha classificação: ★★★★★ (5/5)
*E-book cedido pela editora

Sobre ter uma vida invisível e ser uma mulher invisível

Eurídice Gusmão se casou ainda jovem com Antenor, tornando-se uma dona de casa e uma mulher que dedicava todo o seu tempo para cuidar dos filhos e do marido. Antes, quando ainda era pequena, Eurídice teve uma grande perda na família: sua irmã mais velha, Guida, fugiu de casa e nunca mais voltou, deixando na garota um vazio que não conseguiu ser preenchido nem mesmo pelo marido, que logo se mostrou não ser o melhor dos homens, e nem pelo casal de filhos.

Guida era a irmã mais velha de Eurídice, sendo assim a sua protetora. Era Guida quem cuidava e protegia a irmã mais nova, como também era Guida quem sempre estava ao seu lado. Após sua partida repentina não houve notícia alguma de Guida ou algum indício de para onde ela teria ido, abandonando Eurídice aos próprios cuidados e deixando pai e mãe preocupados com o destino da filha mais velha.

Mesmo que essa partida tenha gerado profundas marcas em Eurídice, ela nunca se deixou esquecer da irmã – e isso é claro em todos os momentos -, assim como também sempre quis ser um pouco mais como ela. Eurídice até poderia ser feliz por um tempo com a sua nova família formada, mas nem todos os momentos eram flores. Antenor não era um homem fácil de se conviver, ainda mais quando insistia em beber doses de uísque durante a noite, despejando em Eurídice todas as suas dúvidas e receios sobre a índole da esposa.

Tão pouco ele deixava com que Eurídice ocupasse o seu tempo com coisas que não fossem a casa, os filhos e o próprio marido. Tomar gosto pela cozinha e criar um caderno de receitas? É claro que não! Costurar para as vizinhas e criar os próprios vestidos? Absolutamente não! Os sonhos de Eurídice não são permitidos por Antenor, tornando-a assim uma mulher triste, vazia e monótona.

Mas é claro que a história não acaba por aqui e que Eurídice e Guida ainda tem muito para nos contar e nos ensinar.

A Vida Invisível de Eurídice Gusmão é ambientando em um Brasil na década de 40 e chega até a década de 60 com o decorrer da história. A autora trata temas como a rejeição – da sociedade, da família -, as dificuldades em ser mulher e o abandono. É um livro sobre ser mulher e sobre as diferenças entre nós, mas também as igualdades. É um livro sobre se viver uma vida apagada e ser apagada, ser esquecida.


“Porque Eurídice, vejam vocês, era uma mulher brilhante. Se lhe dessem cálculos elaborados ela projetaria pontes. Se lhe dessem um laboratório ela inventaria vacina. Se lhe dessem páginas brancas ela escrevia clássicos. Mas o que lhe deram foram cuecas sujas, que Eurídice lavou muito rápido e muito bem, sentando-se em seguida no sofá, olhando as unhas e pensando no que deveria pensar. E foi assim que concluiu que não deveria pensar.”

Todas nós somos Eurídice e Guida; todas nós somos mulheres invisíveis.

Terminei essa leitura com um nó na garganta e um embrulho no estômago. Todo o desenvolvimento da história me chocou, pois não esperava que as personagens fossem me trazer um relato tão intenso e vívido de suas vidas. É incrível o que a autora conseguiu fazer em poucas páginas, me deixando muitas vezes mal com algumas situações e muitas vezes feliz com outras.

Vi que Eurídice se modificou, se apagou e depois se libertou (de certa maneira). É estranho e até melancólico, mas acredito que há um pouco de Eurídice e de Guida em cada uma de nós mulheres, seja por bem ou por mal, e talvez isso tenha feito com que eu me apegasse tanto a leitura e as personagens. Me senti parte delas, me senti como elas, me senti elas.

A escrita poética, que ao mesmo tempo também é simples, traz uma certa repetição de palavras e sentidos, dando ênfase em cada acontecimento e em cada sentimento. Isso resulta em uma leitura mais lenta, apesar da pequena quantidade de páginas, pois há muitos detalhes sobre a vida das irmãs e até mesmo sobre a vida de alguns personagens secundários, o que faz com que entendamos cada ação e posição deles, se mostrando assim um livro sobre pessoas e sobre o que as moldam.

Apesar de ser uma história bastante triste, a obra também consegue ter seus momentos de humor e de reflexão. Por isso foi uma leitura incrível que me fez e ainda fará pensar muito, sobre várias coisas. Espero que todas as mulheres possam ter contato com essa obra maravilhosa, seja através da Literatura ou até mesmo do filme que já está em cartaz, e saiam com um novo pensamento após essa conexão surpreendente.


“Ela não era, de fato, louca. Eurídice era uma criatura exótica. Exótica pelo turbante, exótica pelos escritos. Exótica porque não havia mais parâmetros que fundamentassem a comparação.”


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11 thoughts on “Resenha: “A Vida Invisível de Eurídice Gusmão” – Martha Batalha”

    1. Olá, obrigada!
      Espero que você goste da leitura tanto quanto eu, pois é um livro espetacular que nos faz refletir sobre nós mesmas e as demais mulheres ao nosso redor. Uma leitura que estou recomendando para todos!

  1. Thainá!

    Menina que livro de história forte em? Primeiro queria dizer que sua resenha está maravilhosa, você consegue transmitir bem seus sentimentos quanto a leitura!! Sobre o livro, eu me pego pensando o quanto de mulheres não vivem a mesma situação que Eurídice ainda hoje não é mesmo? Essa sociedade machista e misógina a gente luta e batalha contra ela, mas, a sociedade não consegue se livrar desse mal costume! ótima indicação, se eu tiver oportunidade eu vou ler.

    Beijos!
    Eita Já Li

    1. Infelizmente isso é verdade, e acredito que esse debate ainda seja bastante persistente e importante na geração atual. O livro consegue trazer esse tema com uma leveza dramática impressionante, nos deixando à mercê da personagem e nos sentindo em sua própria pele. Espero que você dê uma chance, pois é uma leitura valiosa.

  2. Olá.
    É muito bom quando começamos a ler um livro sem sabermos muito o que esperar dele e sermos surpreendidas durante a leitura, ainda que de uma forma tão profunda.
    Eu acho que esses temas mais pesados tem sim que ser tratados porque as pessoas podem conhecer outras realidades e o tanto de machismo que as mulheres sofrem.

    1. Sim! Muitas pessoas não conhecem essa realidade e sei que esse tipo de livro pode alcançá-las e fazê-las pensar nisso. Afinal, é para isso que a Literatura serve, né? E também é por isso que queria poder distribuir um exemplar desse livro para todo mundo, tamanha a necessidade de compartilhar essa história.

  3. Oi Thainá .

    Pela sua resenha o livro é surpreendente abordando temas fortes e contém uma história valiosa. Com certeza quero conferir este livro o mais rápido possível. Parabéns pela resenha e obrigada pela dica.

    Bjos

  4. É a primeira vez que leio a resenha desse livro e estou impactada. Eu não esperava que o livro abordasse temas fortes. Esse livro, sem dúvidas, tem muito a ensinar e uma história incrível. Já vou adicionar na minha listinha!

    beijos,

  5. Não conhecia esse livro e estou totalmente encantada pela abordagem dele, preciso realizar essa leitura urgente. Temática importante e pelo visto feita de forma incrível!!! Mega adicionado na minha lista!!!

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