Literatura

Resenha: “O Crime da Galeria de Cristal” – Boris Fausto

Por ser um livro de não-ficção, estava apreensiva e com medo de não conseguir desfrutar totalmente da leitura. Nunca havia ouvido falar do crime que ocorreu, décadas atrás, na Galeria de Cristal e, muito menos, dos dois crimes da mala. Acredito que isso se deva por não ser tão informada dos crimes, mesmo que famosos, em terras brasileiras.

Nesse quesito o livro conseguiu me capturar e me fisgar para um mundo até então desconhecido e/ou ignorado; conseguiu pegar na minha mão e me mostrar todas as nuances dos três crimes, os quais, por coincidência ou não, tinham mulheres relacionadas, mesmo que em posições opostas. E foi exatamente esse ponto que fez toda a diferença para mim: o papel das mulheres em cada crime citado.

Título: O crime da Galeria de Cristal
E os dois crimes da mala, São Paulo, 1908-1928
Autor: Boris Fausto
Quantidade de páginas:
 272
Editora Companhia das Letras
Gênero:
 Não-Ficção / Crime
Ano: 2019
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Minha classificação: ★★★★ (4/5)
*Livro cedido pela editora

Os crimes, as mulheres e a mídia

Boris Fausto é historiador e cientista político, conhecido por suas obras de não-ficção que abordam momentos históricos do Brasil. Nesse amplo leque de publicações, o autor já abordou temas como a história das lutas operárias e a formação da classe trabalhadora no Brasil; a revolução que aconteceu em 1930; a história de Getúlio Vargas; e, na parte dos crimes, o assassinato em um restaurante chinês em 1938.

Sempre através de pesquisas extensas e com uma escrita que beira, às vezes, o bom humor, Boris Fausto faz com que o livro, O Crime da Galeria de Cristal, mesmo abordando temas criminais tão devastadores, se torne uma leitura agradável e informativa, sem ser em momento algum cansativa.

Nesse livro conheceremos a história de três crimes que aconteceram entre os anos de 1908 e 1928, no Brasil. Não há ligações diretas entre os três crimes, mas é possível observar certas características semelhantes, mesmo que pequenas, entre os casos, como por exemplo o fato de todos os envolvidos serem imigrantes. Para isso o autor disponibilizará um texto repleto de informações dos julgamentos no tribunal e também passagens jornalísticas, mostrando assim de que lado a sociedade se impôs em cada crime.

Além disso, a obra também vem recheada de fotos reais, para que assim o nosso entendimento das situações seja ainda mais visual. O anexo contido ao final do livro traz informações adicionais que complementarão nossas visões sobre os casos, fazendo assim com que finalizemos a leitura com total entendimento e até mesmo com uma opinião própria.

A diagramação está ótima para leitura; as imagens reais dão um ar ainda maior de veracidade; e o anexo no final está cheio de informações adicionais. Um prato cheio para qualquer leitor!

O crime da Galeria de Cristal:

Durante as festividades do Carnaval em 1909, Albertina com a ajuda de seu marido, Eliziário Bonilha, mata à sangue frio Arthur Malheiros, um homem que a iludiu e a desonrou. O assassinato é então julgado como um crime de honra, perante toda a história em que envolvia um caso amoroso – e de abandono – entre Albertina e Arthur.

A assassina não nega tal ato, assim confessando o crime e sendo julgada cinco vezes até ter o veredicto final de sua sentença. Mas o que choca o público não é o crime em si, mas, sim, quem o cometeu, pois seria capaz uma mulher ter a força bruta para tal assassinato? Além, do que, na época era raro que mulheres fossem julgadas como assassinas.

Tendo a tal força ou não, a imprensa se mostrou convictamente ao lado de Albertina e seu caso de assassinato, sendo transformada até mesmo em uma heroína. É claro que nem todos viam a mulher com esse status, mas a imprensa era – e ainda é – uma formadora de opiniões, e com isso fazia com que a história de vida e paixão de Albertina fosse compartilhada de uma maneira fantasiosa e vitimizada.

Com todas essas informações – e muitas outras – o leitor é levado para dentro do caso que muitas vezes mostra sinais da realidade machista, sendo assim obrigado a tomar um lado e decidir, em sua própria opinião, o que está certo ou errado.


“(…) ai daquela que tentar vingar a sua honra, pois eles se levantam e se encolerizam e são até capazes de a condenar a trinta anos de prisão para que ninguém mais defenda a honra, para que a honra não exista.”

O primeiro crime da mala:

Um ano antes do crime na Galeria de Cristal, em 1908, Michel Trad assassina o seu sócio Elias Farah, coloca o corpo desfalecido em uma mala e tenta jogá-la ao mar durante uma viagem. Tal ação não dá nada certo, sendo assim pego no flagra e indo a julgamento.

O motivo pelo crime nunca foi revelado por Michel, mas as principais suspeitas recaem em um amor proibido – e talvez não correspondido – do assassino por Carolina Farah, esposa da vítima. Mesmo que Carolina diga que nunca viu Michel com segundas intenções, indícios não confirmados de uma relação amorosa com o assassino caem nas mãos da polícia e isso faz com que Carolina seja vista como uma possível cúmplice, indo também a julgamento.

O caso ganha grande repercussão na mídia e, consequentemente, a mídia ganha toda a atenção de Michel Trad, que afirma, através de seu diário na prisão, que a culpa de haver assassinos no mundo se deve exclusivamente aos jornais que insistem em publicar tantas tragédias.

O segundo crime da mala:

Em 1928, 20 anos após o primeiro caso conhecido como o crime da mala, mais um assassinato chocou o Brasil: Giuseppe Pistone mata a sua esposa, Maria Fea. Após uma briga com Maria envolvendo o gasto excessivo pelo homem do pouco dinheiro ainda restante da família, Giuseppe sufoca a esposa, coloca o corpo em uma mala e o despacha em um navio. Mas, por sorte, a mala é descoberta antes do navio zarpar.

Giuseppe ainda inventou histórias sobre o motivo do assassinato, colocando a culpa da morte na própria vítima. É claro que ninguém acreditou em suas declarações absurdas e ele foi condenado por 31 anos. Porém o desenrolar do caso não terminou ali. O povo que acompanhou o julgamento viu em Maria Fea uma santidade, sendo considerada até hoje, para muitos, como uma santa.

Há, ao final, um pouco do diário de Michel Trad, escrito quando ainda estava na prisão.

Um novo olhar, para mim, sob a não-ficção.

Que leitura surpreendente! Eu não conhecia os casos descritos nesse livro, então foi bastante interessante conhecê-los com detalhes, ainda mais porque os três têm envolvimentos – de diferentes maneiras – de mulheres e o autor expõe como cada situação tem sua singularidade.

Como o livro tem muitas fotos e uma diagramação confortável, a leitura flui bastante e nos instiga a querer saber mais sobre cada caso. Nessa resenha eu comentei apenas o básico sobre os crimes, sem me aprofundar nos detalhes ou em partes do julgamento, deixando essas partes exclusivamente para a sua interação com o próprio livro. Então não se preocupem, pois em nada isso afetará na sua experiência de leitura.

Eu não tive muito contato com leituras de não-ficção em 2019, mas gostei de finalizar o ano passado lendo exatamente esse exemplar. Eu o recebi da Companhia das Letras no início de 2019, mas adiei a leitura por medo de não gostar. O quão foi minha surpresa quando senti exatamente o oposto durante a leitura, sendo fisgada para dentro dos casos e depois pesquisando ainda mais sobre cada um.

Recomendo bastante para quem gosta do gênero e para quem gosta de estudar sobre crimes, principalmente para se ter um conhecimento mais vasto dos ocorridos no Brasil. O livro também se faz bastante necessário para formandos em Direito, já que envolve e mostra bastante o lado jurídico dos julgamentos.


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3 thoughts on “Resenha: “O Crime da Galeria de Cristal” – Boris Fausto”

  1. Oi Thainá.

    Sua resenha foi uma surpresa pra mim pois não conhecia este livro e fiquei bastante curiosa para saber mais sobre os três crimes que ocorreu no livro. Muito obrigada pela dica e parabéns pela resenha.

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