Literatura

Resenha: “Becos da memória” – Conceição Evaristo

Cada casa, cada família, conta uma história.

Assim, como cada bairro, cada rua, também conta sua própria história. Imagine, então, uma favela. Esse lugar lotado de gente, que se diversifica em suas trajetórias, em suas sofrências, em suas vivências. Arrisco em dizer que a favela é a grande protagonista do livro. Justamente por trazer histórias múltiplas que nos arrepiam e nos mostram a realidade crua de uma década de 90 que ainda persiste e perpetua nos dias atuais.

Aqui, temos vivências que se entrelaçam. Uma garota que deseja ser escritora e que, para isso, escuta as histórias de quem quer compartilhar. Um bom homem que ajuda a todos, sendo o amuleto da sorte do time de futebol e repousando nas casas acolhedoras. Uma empregada doméstica que cuida sozinha da família e toma um ato impensado em uma ação de muita angústia. Uma mulher que se enclausura por causa do preconceito e da rejeição. Um velho que perdeu tudo, mas que sobrevive ao tempo.

E outras mais pessoas, todas sobrevivendo apesar de tudo. Apesar, inclusive, da ação do governo em demolir a favela, expulsando cada família, uma a uma. É nessa favela que chegam pessoas para ajudar (e que precisam de ajuda). É ali que famílias são formadas e desfeitas, que crianças nascem e morrem. É dali que elas precisam sair, mesmo sem um lugar para criar nova morada.

Será nessa favela que viveremos horas, dias e até meses, enquanto nossa estadia quiser durar. Enquanto nosso coração conseguir aguentar.


“Entretanto o que doía mesmo em Maria-Nova era ver que tudo se repetia, um pouco diferente, mas, no fundo, a miséria era a mesma. O seu povo, os oprimidos, os miseráveis; em todas as histórias, quase nunca eram os vencedores, e sim, quase sempre, os vencidos. A ferida dos do lado de cá sempre ardia, doía e sangrava muito.”


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Reprodução: Biblioteca Pessoal

Becos da memória é sobre pessoas; pessoas que muitas vezes não enxergamos

A escrivivência de Conceição Evaristo nos atravessa como um raio, sem pena do que é deixado para trás. É impossível ler Conceição e sair da leitura do mesmo jeito que era antes, olhar para o outro da mesma maneira. Essa magia que a literatura tem de nos transformar através da dor do outro, tão bonito e tão trágico.

Por isso, é claro que a leitura foi intensa e magnética. Li em todo momento que arranjava, sedenta por essas histórias e curiosa pelo desfecho. Torci por um final feliz, mesmo sabendo o quão difícil isso seria.

De qualquer forma, é uma leitura difícil de ser digerida e esquecida, mas que, com toda a certeza, estará entre as melhores leituras do ano e da vida. Becos da memória foi meu primeiro contato com a escrita de Conceição e logo nele já senti que a escritora estará comigo pelo resto da minha vida a partir de agora.

Qual foi sua primeira leitura da Conceição? 💬


“Só o Homem entendeu, só ele percebeu, só ele leu na atitude de Zé Meleca que, se cuidado a gente não toma, até a dignidade da nossa gente os do lado de lá podem roubar.”

Título: Becos da memória
Autora: Conceição Evaristo
Quantidade de páginas: 200
Editora Pallas
Gênero:
 Ficção / Romance memorialista
Ano: 2018
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Compre: Amazon
Minha classificação: ★★★ (5/5)


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📖 Leitura feita em conjunto no meu clube de leituras Claricimas.


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