Literatura

Resenha: “Quando a Lenda Ganha Vida” – Vários autores

Título: Quando a Lenda Ganha Vida
Organizadores:  Wesnen Tellurian e Junior Salvador 
Vários autores
Editora Sinna

Gênero: Literatura Nacional / Contos / Suspense
Ano: 2019
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Compre: Amazon | Editora Sinna
Minha classificação: ★★★★ (4/5) 
* E-book cedido pela editora

O folclore brasileiro está de volta!

Eu tenho um grande problema de memória, e por isso sempre é difícil lembrar de acontecimentos do passado ou lembranças da infância. Porém, por curiosidade, eu consigo lembrar de uma memória específica de quando eu ainda era criança e estudava em uma escola particular na minha cidade. Lembro de estar sentada no pátio com outros coleguinhas, atenta à apresentação que se desenrolava na minha frente. Não lembro com precisão do que se tratava o teatro, mas lembro de uma pessoa adulta vestida de Boto-cor-de-rosa, o mesmo da lenda que conhecemos.

É por causa dessa lembrança que eu sei – e ainda lembro – que tive contato com as lendas do nosso folclore. Possivelmente não foram me apresentada todas, mas ao menos pude conhecer as mais faladas e reconhecidas pelo povo. Talvez por isso a leitura tenha sido para mim mais uma especie de nostalgia do que de conhecimento próprio. Talvez também por isso eu tenha me sentido realizada com a leitura e feliz por relembrar momentos que antes pareciam esquecidos. E talvez por isso Quando a Lenda Ganha vida tenha conquistado um pedaço infinito em meu coração.

Mas convenhamos que isso importou para mim, mas pode não fazer diferença para você. Aliás o livro serve tanto como um redescobrimento de lendas que você já teve contato como também uma nova visão sobre o folclore que você nunca soube com mais detalhes. O caminho pelo qual você chegou nessas histórias pode ou não afetar a sua experiência de leitura, isso realmente não é o essencial, mas, sim, estar aberto para desbravar a nossa cultura.


“Mas há uma linha tênue, frágil demais entre a verdade e o desconhecido. Limites que o homem e sua carcaça mortal devem respeitar.”


O livro é composto por 15 contos que se intercalam entre suspense e terror, todos escritos por autores e autoras nacionais. Mas para não me estender sobre todas as histórias e estragar a surpresa do desconhecido, irei comentar apenas sobre os meus cinco contos favoritos, aqueles que mais me deixaram apreensiva e roendo as unhas.

Névoa Branca, de Igor Moraes:
Sendo a descrição de um vídeo gravado pelo Dr. Vicente Góis, esse conto narra a experiência e a crença do Dr. perante o que ele viu no sítio arqueológico de Iracema e os acontecimentos em Minas Gerais, durante o ano de 2015, que se antecederam a isso. Os índios, também chamados como Névoa Branca, estão envolvidos em ambos os momentos, tornando-se assim os principais suspeitos das catástrofes. Além da narração, que me envolveu de uma maneira singular, a própria história me pegou desprevenida, sendo a primeira da antologia que me fez suar de apreensão e ficar curiosa para saber como tudo iria terminar.

A Lenda de Teiniaguá, de Márcia Medeiros:
Nesse a narradora irá compartilhar conosco uma lenda que seu avô lhe contava quando ainda era criança, a lenda de Teiniaguá. Essa lenda conta a história de uma salamandra em corpo de mulher que seduziu um sacristão e depois o conduziu a morte. É um conto estranho que mistura horror com religião, nos conduzindo assim a um jogo de sedução e morte.

Pecado, de John Elton:
Nesse conto uma jovem se apaixona por um padre e comete o pecado de se entregar sexualmente para ele. Quando revela ao homem – também considerado como santo – que está grávida, desperta nele uma reação inesperada e mortal. O problema é que a vingança está logo ali, e essa ação horrorosa do padre não ficará impune, sendo assim marcado e fadado à morte. Nessa história há a presença da mula sem cabeça, algo que me impressionou e me fez gostar ainda mais do conto.

Maus Presságios, de Bruna Corrêa:
Um grupo de amigos decide ir até uma floresta perto de uma cachoeira para assim conseguirem ver no céu limpo o eclipse lunar. Conversa vai, conversa vem, o grupo acaba por começar a contar histórias de terror ao redor da fogueira, um momento aparentemente propício para isso. Entretanto um deles consegue manter a atenção dos demais ao contar uma lenda sobre o demônio da floresta. Acredito que esse seja o meu conto preferido da antologia, já que mistura horror, sangue e brutalidade de uma forma única. Há apreensão, medo e clímax, tudo de uma maneira que cada característica se mescla e se complementa. Fiquei curiosa para ler mais coisas da autora.

Asas de Morcego, de Fernanda Miranda:
Guandira, uma cunhã-morcega, auxilia os deuses Tupã e Cy a manterem o equilíbrio na Terra e a salvarem os animais da floresta. Para isso – e para manter a alimentação em dia – a guardiã precisa matar os homens brancos que são maus para as índias e para a natureza. Tanto a mitologia como também a própria criatura feminina me chamaram bastante atenção, me deixando curiosa para saber mais sobre essa lenda em si. Eu também adorei as motivações da personagem e gostei de vê-la combatendo a maldade humana.


“Ao contrário das outras vezes em que vinha se confessar, hoje ela não temia por seus devaneios; temia encarar seu maior pecado. Temia a ira de Deus.”


O homem branco vs a natureza.

Assim como acontece na maioria das antologias nessa eu também me envolvi mais com alguns contos do que com outros. Alguns foram cansativos, lentos e confusos; enquanto outros me envolveram rapidamente e me deixaram curiosa e apreensiva durante a narrativa. Acredito que por isso em alguns momentos a leitura fluía melhor do que em outros.

Um ponto que me chamou a atenção – e que apareceu na maioria dos contos – foi a presença do embate entre o homem branco e os sobreviventes da natureza, sejam eles índios ou animais. A natureza se colocando de pé e lutando pelo seu habitat. Isso abre portas para inúmeros debates e faz também com que o próprio leitor se conscientize sobre o assunto, nos fazendo indagar sobre quem realmente é o verdadeiro vilão da história.

Como eu disse no início da resenha não é obrigatório que você conheça todas as lendas para poder efetuar a leitura, até porque eu mesma não conhecia todas que foram exploradas, mas ter um conhecimento básico é importante, pois assim faz com que a experiência de leitura seja ainda mais completa. É interessante ler cada conto e tentar, ao longo da narrativa, descobrir qual é a lenda que foi inspiração para o autor. As que eu não conhecia tive vontade de pesquisar – e inclusive já dei uma lida.

Quando a Lenda Ganha Vida é uma ótima pedida para aqueles que, assim como eu, querem ter um gostinho a mais sobre as lendas da nossa terra. Além de ser uma indicação certeira para os fãs do gênero suspense, também é uma ótima forma de se trabalhar o folclore brasileiro com adolescentes e adultos, seja em sala de aula ou em debates por aí.


“Seria uma nova espécie ou só um homem comum alcançado pelo mal encarnado?”


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5 thoughts on “Resenha: “Quando a Lenda Ganha Vida” – Vários autores”

  1. Nossa amei essa dica, sou fã do genero e fiquei super interessada em ler, eu acho legal quando os autores fazem uma releitura das lendas do folclore e tal, rende um negócio muito bom. adorei sua resenha!

  2. Achei muito legal ser uma coletânea de contos com foco no folclore… É difícil ver algo indo pra esse lado né? E nosso folclore é basicamente um gênero de fantasia nacional por si só. Muito interessante!

  3. Olá!
    Nossa, primeiramente achei esta capa maravilhosa! Ano passado li uma obra nacional que também me fez relembrar sobre o folclore e como temos histórias incríveis para contar por aqui também. E agora, com sua resenha, me deu uma curiosidade imensa de ler este livro também. Ainda mais com esse toque de suspense, preciso ler também!

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