Literatura

Resenha: “O Conto da Aia” – Margaret Atwood

Publicado pela primeira vez durante a década de 80, O Conto da Aia se tornou uma das distopias mais revolucionárias e, tristemente, atuais que podemos encontrar no meio literário. Com uma temática forte e sufocante, Margaret Atwood não precisa se sujeitar a descrever cenas chocantes ou de violência gratuita, deixando o teor pesado e intenso à mercê da nova vivência opressora das mulheres.

Infelizmente O Conto da Aia não é apenas um livro, apenas uma ficção, mas é a realidade triste e cruel de uma era composta por machismos e sexismos fundados em opiniões religiosas de cunho extremo e preconceituoso. E infelizmente essa realidade aparenta estar mais próxima de nós, mulheres, do que deveria estar.

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Título: O Conto da Aia
Autora: Margaret Atwood
Quantidade de páginas: 368
Editora Rocco
Gênero:
 Ficção / Distopia
Ano: 2017
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Minha classificação: ★★★★★ (5/5)

Mulheres sem direitos, sem opiniões e sem liberdade

Offred, a nossa narradora-personagem, é uma Aia. Esse não é o seu nome verdadeiro e ser uma Aia não é algo que sempre foi constante em sua vida, porém, mesmo assim, essa é a nova vida de Offred e de muitas outras mulheres que vivem na República de Gilead.

Nesse novo governo repleto de repreensão e fanatismo religioso, onde as pessoas são divididas em castas, ser uma Aia significa ser um corpo com o único objetivo de reproduzir. Ser uma Aia é ser apenas um corpo, uma casca; é ter como finalidade gerar filhos para as famílias ricas que não conseguem gerar do próprio sangue. É para isso que elas servem, e ainda mais: sem direitos, sem opiniões e sem liberdade.

Nossa narradora-protagonista está em sua segunda família, sua segunda tentativa de concretizar o destino das Aia e de não ser jogada junto aos excluídos desse novo mundo. Mas para ela nem sempre foi assim. Há um passado, há algumas memórias e há uma saudade infinita de uma família que há muito se perdeu em suas lembranças.

Através de uma narração em 1° pessoa, confusa, mas descritiva, o leitor é preso é um mar agitado de pensamentos secretos, vidas sufocadas e direitos ceifados. Há muita reflexão a ser digerida sobre o que nós mulheres somos, o que conquistamos e o que ainda temos a perder. Para os outros nós realmente somos apenas uma casca? Uma mente vazia que precisa ser preenchida? Uma tela em branco que necessita de um homem para virar arte? Somos um nada?


“Somos úteros de duas pernas, apenas isso: receptáculos sagrados, cálices ambulantes.”

Reprodução: Biblioteca Pessoal

Um livro desconfortável, mas ainda tão necessário

Para mim já era óbvio que eu iria gostar muito de O Conto da Aia, pois é o tipo de leitura que sempre busco e admiro. Então é claro que eu não imaginei errado, li o livro e gostei muito do que encontrei. Apesar de não ter sido uma leitura fácil de ser digerida e nem rápida de ser consumida, foi um livro que adorei, se é possível dizer isso, cada parte.

O início aparentou ser meio lento e confuso, mesmo eu já sabendo do teor da obra, mas isso não me impediu de insistir na leitura. Continuei e não me arrependo. Não achei nada visualmente chocante, mas os temas abordados pela autora fizeram, sim, com que eu ficasse enjoada, sem ar, agoniada, incomodada. E o que me fez ter esses sentimentos ainda mais afloradas foi perceber que aquilo não é lá tão distópico assim, pois mesmo tendo sido escrito na década de 80 a história se mostra mais real do que nunca no mundo em que vivemos, e isso é alarmante.

Continuamos sem ter controle do nosso próprio corpo; continuamos em busca de nossa liberdade; continuamos. E é claro, assim como Offred, uma mulher sem escolhas e sem as rédeas de seu próprio destino, iremos continuar. Para sempre. Até que nossa liberdade seja conquistada e que ser mulher não seja mais um empecilho, mas, sim, um orgulho.

Entretanto, mesmo tendo apreciado demais a obra, não sei se um dia assistirei a série, por mais que seja extremamente aclamada. No momento não me sinto confortável para reviver toda a história novamente, por isso digo que não sei se um dia darei a oportunidade para a adaptação. Quem sabe, não é?

Quanto a continuação, essa eu pretendo sim consumir e espero que logo, pois, mesmo sabendo que não é propriamente uma continuação de O Conto da Aia, me sinto ansiosa para descobrir mais sobre as mulheres desse meio. De qualquer forma, deixo aqui esse livro tão necessário como uma leitura mais do que recomendada, principalmente nos dias de hoje.


“Melhor nunca significa melhor para todo mundo, diz ele. Sempre significa pior, para alguns.”


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10 thoughts on “Resenha: “O Conto da Aia” – Margaret Atwood”

  1. Olá, adorei saber um pouco do livro através dos seus olhos, quando li a obra há um tempo atrás me lembro de ter ficado perplexa e totalmente envolvida com a leitura, foi um experiência muito significativa.

    1. Acredito que nunca tive essa mesma experiência com outro livro, ainda mais desses sentimentos de horror e identificação. Li em maio e ainda lembro perfeitamente da história, das sensações e do medo de tudo isso se tornar real.

  2. Oiieee

    Eu tenho esse livro na lista para ler há um tempão, sou fascinada por essa trama e tb tenho certeza que vou gostar. Achei que a continuação seguisse centrada nos mesmos personagens, interessante saber que é mas não é ao mesmo tempo já que só se ambienta no mesmo universo. A dica está anotada, espero conferir esse livro em breve.

    Beijos, Ivy

    http://www.derepentenoultimolivro.com

    1. Olá!
      Eu soube que a continuação dará uma explicação sobre o final desse livro, mas não terá a Offred como protagonista novamente, o que é bom e ruim ao mesmo tempo, né? De qualquer forma, quero muito lê-lo logo. E espero que você também leia esse logo, pois, apesar do incômodo, vale muito a pena!

  3. Eu fico realmente impressionada com certos autores que conseguem escrever livros assim, com essas temáticas, dentro de um gênero que consideramos distopia, e no final das contas… quando se passa muitos anos, a gente acaba por ver muitas histórias se concretizando em vários aspectos.
    Chega a ser assustador. E tenho visto muito isso, ou pelo menos, percebido melhor.
    Parabéns por trazer a resenha dessa obra! Abraços

    1. Obrigada, Carol.
      É muito triste, né? Algo que era para ser uma fantasia, uma escapatória, acaba se concretizando de forma horrorosa e deprimente. É incrível saber que essa distopia foi escrita há décadas, mas a cada ano se torna mais real e crível de acontecer. Incrível no mau sentido, claro. Acho que por isso é uma leitura tão necessária e gritante, exatamente para fazermos de tudo para que isso não aconteça.

  4. Oi, tudo bem? Eu fiz a leitura desse livro em 2017 e até hoje não consegui escrever uma resenha sobre ele, parece que não consegui assimilar tudo que o livro tem para entregar, me senti sufocada e pressa durante toda a leitura! O sentimento que se abateu sobre mim foi assustador, não consigo imaginar o que seria de mim se algo do tipo realmente acontecesse, infelizmente, estamos com a politica tão prejudicada que isso pode vir a acontece em algum momento.
    Amei conhecer sua opinião!

    Viviane Almeida
    Resenhas da Viviane

    1. Te entendo. Com certeza será uma leitura que me acompanhará durante muitos anos, ainda mais por ter uma história difícil de ser esquecida e digerida. Fico imaginando o que seria de nós, caso isso acontecesse e odeio pensar nisso, pois me deixa ainda mais claustrofóbica do que quando fiz a leitura. Infelizmente só nos resta fazermos nossa parte e tentarmos não deixar com que nossos direitos se tornem nulos.

    1. Compreendo, e às vezes é melhor não lê-lo, não se for lhe deixar mal a ponto de causar gatilhos ou mal estar. De qualquer forma é uma leitura muito importante e espero que ela alcance o máximo de leitores possível.

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