Literatura

Resenha: “Território Lovecraft” – Matt Ruff

Território Lovecraft foi um dos lançamentos do primeiro semestre que eu mais estava ansiosa para ler. Gosto muito de ter contato com releituras de obras de autores que eu admiro, por isso, mesmo não sendo propriamente uma releitura de algum conto do H.P. Lovecraft, fiquei bastante curiosa para saber o que a história de Matt Ruff podia me proporcionar, principalmente em relação às sensações.

Eu sou muito fã de tudo que o Lovecraft criou. Sou grande fã de sua obra, mas não de sua pessoa. Assim como gosto de releituras, também aprecio quando um autor pega algo já existente e o transforma em algo único. E por isso a obra de Matt Ruff era tão promissora aos meus olhos, pois, além de adaptar as criações de Lovecraft também transformaria os próprios ideais preconceituosos do autor em uma crítica, e foi um tombo enorme para mim ler Território Lovecraft e não gostar tanto assim.

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Título: Território Lovecraft
Autor: Matt Ruff
Quantidade de páginas:
 352
Editora Intrínseca
Gênero:
 Ficção / Horror / Suspense e Mistério
Ano: 2020
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Minha classificação: ★★★ (3,5/5) 

Seja bem vindo(a) ao Território Lovecraft!

Após receber uma carta estranha de seu pai, Montrose, sobre a linhagem recém-descoberta e até então desconhecida de sua falecida mãe, Dora, Atticus Turner viaja para Chicago em busca de respostas que possa ouvir da própria boca de seu pai. No entanto ao chegar no bairro em que cresceu, Atticus descobre que Montrose não está mais lá, tendo ido para Ardham na companhia de um homem branco.

Estando preocupado e achando toda essa história uma completa loucura, Atticus, na companhia de seu tio George e de sua amiga Letitia, fará uma viagem até Ardham com o intuito de trazer o seu pai de volta, independente do motivo que o tenha levado até lá. Mas há um problema: o ano é 1954, Atticus, George e Letitia são negros, e a estrada é repleta de pessoas racistas que farão de tudo para vê-los despedaçados.

Território Lovecraft é um livro composto por oito contos que seguem uma ordem cronológica, cada um focando em personagens diferentes, mas que são conhecidos – familiares e amigos – de longa data. O enredo citado logo acima é apenas uma base do que acontecerá no primeiro conto, por isso não se preocupem, pois o livro ainda tem muito conteúdo para lhe entregar. Há feitiçaria, cultos e jogos de poder, embalados por uma crítica ao racismo que, talvez, não tenha sido executada da melhor maneira.

O título da obra não é por acaso, pois o autor faz, sim, uma relação com as cidades e as criações de H.P. Lovecraft ao mesmo tempo em que traz o tema do racismo à tona, com protagonistas negros e negras viventes do preconceito, resultando assim em uma alfinetada ao autor pai dos Mythos, já que Lovecraft era conhecido por ser abertamente racista.


“Sua experiência ensinara que os brancos eram muito mais transparentes. Os que sentiam mais ódio quase nunca tentavam esconder sua hostilidade, e quando, por algum motivo, tentavam camuflá-la, geralmente exibiam toda a sagacidade de uma criança de cinco anos, que nem imagina que o mundo possa vê-los de outra maneira senão aquela como eles mesmos gostariam de ser vistos.”

Reprodução: Biblioteca Pessoal

Segregação racial, violência policial e racismo, esses são alguns tópicos explorados por Matt Ruff, no entanto o excesso de tais cenas e diálogos não trazem reflexões para história, mas, sim, desgastam o leitor.

Não vou dizer que a leitura foi uma decepção total, afinal eu gostei de certas coisas do enredo e também da companhia dos personagens, mas, posso afirmar, que poderia ter sido uma leitura bem melhor, favorita até.

Se eu vejo algo que faz relação ao universo ou criações do Lovecraft, logo fico entusiasmada e curiosa para conferir o resultado, por isso dessa vez não foi diferente, o título por si só desse livro já me chamava bastante atenção. Saber que o autor utilizava da história do Lovecraft para também retratar sobre racismo nos anos 50, também foi outro ponto que me chamou bastante atenção, mas que, ao meu ver, não foi lá muito bem trabalhada. Eu fiquei com uma impressão de que, muitas vezes, o autor colocava várias cenas de violência e racismo simplesmente para chocar, e nada mais. Não havia uma reflexão por trás disso ou uma forma de nos deixar indignados. É claro que em momento algum passa em nossa cabeça a opção de apoiar os racistas, mas acho que essa artimanha ficou exagerada e pecou no excesso.

As descrições são confusas e o destino de uma certa personagem me deixou muito chateada, pois fiquei com a impressão de que a mensagem ali por trás foi que ser branco era melhor do que ser negro. O que poderia, mais uma vez, ter sido uma crítica, para mim, pareceu exagerado e mal feito. No entanto eu gostei da maioria dos personagens, mesmo que, às vezes, certas atitudes me tirassem do sério, como por exemplo no segundo conto, A Casa Assombrada dos Sonhos, onde há partes que Letitia discute com um fantasma, deixando a cena com um humor inapropriado e chocoso, o que me fez lembrar os filmes Todo Mundo em Pânico.

Entre oito contos gostei mais de dois, tendo uma experiência bem mediana com os demais. Eu apreciei o primeiro conto, a maneira como a história começou e para onde ela insinuava ir, e também o último, com um desfecho que me surpreendeu, apesar de um prefácio extremamente clichê. Outro motivo para eu pegá-lo para ler foi porque estou ansiosa para a série que será lançada em agosto pela HBO, mas espero que a adaptação corrija tais erros e traga uma atmosfera mais imersiva de terror, a qual não senti no livro. Espero até que seja melhor.

De qualquer forma, caso você tenha curiosidade pelo enredo e goste de ler obras inspiradas em Lovecraft, acredito que vale a pena dar uma chance. Não encontrei nenhum terror que assuste, por isso não classificaria como uma obra para dar medo, mas a indicaria para quem tem receio de ler H.P. Lovecraft e também para quem quer começar a ler o gênero.


“- É sempre a mesma coisa – disse Montrose. – Não importa o que eles tenham feito a você, depois é como se nada tivesse acontecido. A gente tem é que ficar agradecido por ainda estar respirando.”


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6 thoughts on “Resenha: “Território Lovecraft” – Matt Ruff”

  1. Interessante esses temas que o autor quis abordar na releitura , pena que não soube desenvolver bem.
    Eu gostei de sua resenha achei muito explicativa, eu não leria algo do H.P. Lovecraft não sei nem sei dou uma chance, nesse tipo de gênero eu gosto do Poe.

    Beijos!

  2. Olá!
    Eu ainda não tive a oportunidade de ler os livros do Lovecraft, apesar de ter recebido várias indicações de amigos leitores das obras dele, por enquanto ainda não tive aquele interesse necessário para sentar e ler uma história escrita pelo autor mas, acredito que seria ótimo conhecer um pouco do seu trabalho através, de releituras das suas obras. Mesmo, sabendo que você não gostou tanto assim do livro, fiquei interessada em conhecê-lo.

    Viviane Almeida
    Resenhas da Viviane

  3. Gostei de conhecer o seu ponto de vista. Li essa obra logo quando chegou pela caixinha dos intrínsecos e confesso que não me conquistou em absolutamente nada. Um ponto que você citou e devo concordar é que “o excesso de tais cenas e diálogos desgastam o leitor” e é exatamente isso. É um tema importante e necessário para ser abordado, mas a forma como foi desenvolvido, não conquistou. Uma pena que não curtiu tanto.

  4. Eu li esse livro pela versão do Intrínsecos e foi uma leitura boa, um tanto arrastada e com um final SUPER corrido, no meu ver, e não sei se gostei tanto assim. Adorei seus pontos levantados!

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