Literatura

Resenha: “A Filha Primitiva” – Vanessa Passos

A Filha Primitiva foi a leitura coletiva de março do Clube Claricimas, fazendo com que todas nós nos debruçássemos em lágrimas e sentíssemos cada página em nosso mais íntimo ser. O debate, inclusive com a própria autora, foi essencial para entender e apreciar ainda mais a obra.

Além disso, senti uma leve semelhança com as histórias da Aline Bei, uma das minhas autoras contemporâneas favoritas, e senti que ambas as autoras sabem trabalhar muito bem o íntimo de suas personagens, as dores, as cicatrizes, os sufocos pessoais, sempre deixando uma brecha para que possamos nos colocar no lugar delas e sempre nos fazendo sofrer com a realidade retratada.


“Falo de como ter uma criança pode ser a desgraça de toda mulher, olhando no olho de cada menina na sala, como um aviso.”

Leia também: O Peso do Pássaro Morto, de Aline Bei

Título: A Filha Primitiva
Autora: Vanessa Passos
Quantidade de páginas: 76
Publicação Independente
Gênero: Ficção / Literatura Nacional
Ano: 2021
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Minha classificação: ★★★★★ (5/5) 

Mulheres sem nome, mulheres sem identidade

A história entrelaçada de três gerações de mulheres de uma mesma família: a da mãe, a da filha e a da menina (que é cria da filha e neta da mãe). Todas sem nome, sem identidade, sem algo que as caracterize como um ser único, como alguém. A história se repete.

A filha busca pela sua verdade, pela sua hereditariedade, sua história. Ela pressiona a mãe para saber qualquer resquício do pai que a abandonou, ato que foi repetido pelo próprio pai da menina (a sua própria cria). A maldade, a agressão e a raiva são sentimentos constantes da filha e o que a impulsiona em um caminho tortuoso e severo com a mãe, sedenta pela dolorosa verdade.

Há a repetição da tragédia na vida dessas mulheres, como o abandono, a punição e as mesmas dores. A maternidade pode ser violenta e a narração dói, machuca, escancara a verdade dos traumas. Temos a falta de afeto entre mãe e filha e religião como um espécie de salvação e cegueira; temos tudo de uma maneira direta, crua, real.

TW: com uma escrita que não poupa detalhes, há cenas de abusos, violência, estupro e tentativa de suicídio. Esses são alguns dos temas abordados pela autora, então fique ciente do peso da história e da narração.


“Se tem cordão umbilical guardado, fita ressecada do hospital com o nome da menina, ponto que a pele absorveu dentro do corpo, estria no peito e no pé da barriga; se tem os rastros, é porque a vida não é mais a mesma. Pouca coisa sobra da gente depois da maternidade.”

Reprodução: Biblioteca Pessoal

A Filha Primitiva machuca, mas também pode servir como uma espécie de cura e salvação

Que livro forte! Cru, real e sem enrolação. Aqui, temos a vida de alguém que nunca soube de sua identidade, de sua história; alguém que precisa urgentemente montar um mapa de seus antepassados, de sua árvore genealógica, justamente porque precisa disso para se dar uma continuação apropriada, para sair de onde se encontrou parada durante toda a vida.

A falta de identidade fica escancarada quando não sabemos o seu nome, nem o da sua filha, tampouco o da sua mãe, também tendo uma relação com a vontade do afastamento com a menina, a falta de vontade de ter qualquer tipo de intimidade com aquela criança que pariu.

A protagonista segue os passos que a mãe desejou para ela, uma vida que a mãe espelhou nela, nada do que ela possui ou conquistou foi de vontade própria ou foi seu sonho. Agora, com uma filha que também crescerá sem pai, ela vive o dilema do que é a sua própria vida, no que ela se tornou sem um pai, no que ela poderia ter se tornado.

Os diálogos são fortes, reais e desconfortáveis. As situações de abuso e preconceito tocam a gente, nos fazem sofrer, nos fazem sentir asco. É uma história que pode muito bem estar acontecendo na realidade de alguém e acredito que isso é o que faz ela ser ainda mais sufocante.

Eu gritei de raiva da protagonista, mas também pude sentir a sua dor; eu quis chorar com a mãe, abraçá-la, mas, ao mesmo tempo, entendendo essa distância entre as duas; eu quis segurar a menina no colo, dar o afeto que a protagonista não dava para a filha. Eu quis tudo isso e muito mais. O final deixou um gosto agridoce e a curiosidade para saber como a relação e o futuro dessas três mulheres se sucederiam.

Com certeza não é um livro para todos, mas todos deveriam lê-lo. As personagens são um pouco (ou até mesmo muito) de cada uma de nós mulheres. A identificação dói, machuca, mas nos faz abrir os olhos para a realidade que muitas de nós passam no dia a dia, a todo momento, em cada etapa de sua vida.


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2 thoughts on “Resenha: “A Filha Primitiva” – Vanessa Passos”

    1. Depois me diz o que achou? É um livro muito forte e que gera diversos debates. É ótimo para compartilhar opiniões e conversarmos sobre os vários temas e traumas abordados na obra.

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